Beth Lago gosta de sentar na primeira fila do avião. Deve ser para sentar logo. Ela chega, não precisa cruzar com muitos olhares, não precisa ficar esperando ninguém enfiar a mala no bagageiro. Se acomoda atrás do oclão perua e fica ali, logo pertinho da porta. Já entrou em um avião e viu a Beth Lago logo na primeira fila? Assim, pela manhã? É ótimo…
Mas Beth Lago gosta de sentar na primeira fila do avião. Mais espaço para as pernas, atendimento quase que imediato. Você pede aquele jornalzinho, lê mais tranquilo, sem a fila de poltronas da frente te embarreirando. É bom mesmo…
Beth Lago gosta de sentar sempre na primeira fila do avião. Mas tem uma coisa que, segundo ela, acaba com a dose de paciência que ela se dispõe a oferecer às 24 horas de um único dia: objetos de bordo que são guardados no compartimento logo acima da primeira fila. Putz… justamente onde Beth Lago gosta de sentar.
“Onde eu enfio a porra da mala?” – perguntou, exalando um elegante odor de irritação, à aeromoça.
Entendeu? Ela vai guardar sua mala e encontra uns objetos que a tripulação guarda ali. Talvez a própria bagagem, talvez os jornais que oferecem, talvez um kit de primeiros socorros, talvez contrabando de relógios. Mas que devem estar ali pela facilidade de acesso. Sei lá, me parece mais fácil do que guardar lá no meio.
“Onde eu enfio a porra da mala?” – perguntou, salivando perdigotos de perplexidade, e desta vez estendeu o olhar aos passageiros a sua volta.
De que valeria sentar na primeira fila, esticar as pernas, ler tranquilo, comer e beber logo, e sair de vez do avião, se a “porra da mala” não ficasse bem em cima de sua cabeça? Ela teria que pedir pra alguém pegar “a porra da mala” no bagageiro do outro lado? Teria que esticar seus braços para alcançá-la sobre a segunda fila? Queriam que ela deixasse “a porra da mala” no chão? Era isso que esperavam dela?
“Onde eu enfio a porra da mala” – perguntou – ressonando a urgência dos importantes, sem receber a resposta malcriada que muito merecia.

